Sobre rede de agrofloresta Portugal

A Agrofloresta Portugal pretende tornar a agrofloresta em Portugal mais visível, conectada e acessível. O nosso objetivo é fortalecer a comunidade agroflorestal em Portugal, promover a colaboração e a partilha de conhecimento, e contribuir para o desenvolvimento e reconhecimento da agrofloresta como uma abordagem resiliente à gestão do território e ao desenvolvimento rural.A plataforma oferece um ponto de ligação para agricultores, proprietários de terras, profissionais, investigadores, estudantes, ONGs, organizações e decisores políticos, e qualquer pessoa interessada em agrofloresta. Aqui, pode conhecer os fundamentos da agrofloresta em Portugal, os diferentes sistemas agroflorestais existentes no país, e ligar-se à EURAF e à rede europeia. Iremos também divulgar aqui encontros nacionais (presenciais e online) e, brevemente, um mapa de projetos agroflorestais em todo o país.Esta plataforma é desenvolvida e mantida de forma voluntária e irá crescer gradualmente à medida que mais pessoas e organizações contribuam com os seus conhecimentos, projetos e ideias.


O que é agrofloresta?

A agrofloresta consiste na integração deliberada de árvores e arbustos com culturas agrícolas e/ou animais na mesma parcela de terreno, criando interações ecológicas e económicas entre estes elementos.Esta abordagem é reconhecida no âmbito da Política Agrícola Comum (PAC) da União Europeia e pode assumir diversas formas, desde árvores integradas em campos agrícolas e pastagens a pomares, sebes e outros sistemas mistos 1.


Benefícios da agrofloresta

• Adaptação às alterações climáticas e sua mitigação.• Conservação da biodiversidade.• Redução da erosão do solo e melhoria da sua saúde.• Aumento da retenção de água.• Regulação natural de pragas e doenças.• Redução do risco de incêndios• Promoção da polinização e de outros serviços dos ecossistemas 2.Estes benefícios são particularmente relevantes para Portugal. Como país mediterrânico, Portugal está fortemente exposto aos impactos das alterações climáticas e enfrenta desafios como a desertificação, a escassez de água, a degradação do solo e o aumento do risco de incêndios florestais 3.A agrofloresta pode contribuir para paisagens mais resilientes e produtivas, apoiando simultaneamente a produção agrícola e a proteção do solo, da água e da biodiversidade.

Agrofloresta em Portugal

Portugal tem uma das maiores áreas de agrofloresta na Europa, totalizando aproximadamente 1,2 milhões de hectares e correspondendo a 32% da sua superfície agrícola utilizada 4.A agrofloresta está profundamente enraizada na tradição agrícola portuguesa. Trata-se de uma prática integrada que evoluiu ao longo de séculos e que continua a desempenhar um papel fundamental na resposta a desafios contemporâneos relacionados com as alterações climáticas, o desenvolvimento rural e a conservação dos ecossistemas. O montado é o exemplo mais emblemático desta tradição, um elemento marcante da paisagem agrícola portuguesa 5.Do montado aos sistemas silvoaráveis, a agrofloresta em Portugal assume muitas formas diferentes, moldadas pela geografia, clima e tradições de cada região. Organizamos os principais sistemas em quatro categorias — não como uma lista exaustiva, mas como um ponto de partida para conhecer a diversidade da agrofloresta portuguesa.

Sistemas Silvopastoris

Esta categoria reúne sistemas de cobertura arbórea de baixa densidade sobre pastagem — o modelo clássico de "paisagem-parque" que carateriza grande parte do território agroflorestal português, sobretudo no interior e no sul do país.MontadoO montado é um sistema agro-silvo-pastoril distintivo, encontrado principalmente na região do Alentejo, no sul de Portugal. É dominado por povoamentos de sobreiro (Quercus suber) e azinheira (Quercus ilex subsp. rotundifolia), integrados com pastagens e atividades pastoris. O montado apresenta uma paisagem semelhante a um parque, com árvores dispersas de densidades variáveis e copas largas, espalhadas sobre um coberto herbáceo produtivo.Este sistema multifuncional sustenta a produção pecuária, a agricultura, a silvicultura, a apicultura, a caça e o ecoturismo, proporcionando um mosaico de habitats fundamental para a biodiversidade, ao mesmo tempo que permanece profundamente ligado aos modos de vida rurais e assume um significativo valor cultural e socioeconómico em todo o país. A Agência Europeia do Ambiente classifica o montado como um sistema agrícola de Alto Valor Natural (AVN), no qual a produtividade agrícola e a conservação da biodiversidade andam de mãos dadas 6. Um sistema muito próximo, a dehesa, existe do outro lado da fronteira, em Espanha, partilhando grande parte da mesma estrutura ecológica, história de uso do solo e significado cultural.

Soutos e CastinçaisNo Norte e Centro de Portugal, os soutos e castinçais são sistemas de baixa densidade baseados no castanheiro (Castanea sativa), com uma densidade média de cerca de 89 árvores por hectare, ocupando aproximadamente 41 410 hectares. Combinam a produção de castanha ou madeira de qualidade com pastagem permanente para o gado, e podem incluir carvalho-negral em povoamentos mistos. Em 2013, a produção nacional de castanha atingiu cerca de 22 000 toneladas.Na região de Bragança, os pomares de castanheiro são por vezes consociados com cereais consumidos por ovinos, aproveitando o espaçamento relativamente aberto das árvores. Este sistema ocupa uma posição distintiva entre pomar, floresta e sistema silvopastoril, sendo um dos exemplos mais claros de agrofloresta portuguesa capaz de alternar entre produção de fruto, madeira, pastagem e cultura cerealífera consoante a gestão 7. Ao combinar produção de fruto, madeira e pastagem numa mesma parcela, este sistema permite às explorações rurais diversificar rendimentos e reduzir a dependência de uma única cultura 8.

Sistemas Silvoaráveis

Os sistemas silvoaráveis combinam árvores com culturas anuais ou de rotação — cereais, hortícolas ou leguminosas — em vez de pastagem permanente. É uma das categorias mais diversas — e mais subestimadas — da agrofloresta portuguesa, incluindo desde pomares consociados com culturas de sequeiro até configurações do tipo montado, onde o cereal e a pastagem partilham o mesmo terreno, uma prática historicamente comum antes do declínio da cultura cerealífera no século XX.A nível nacional, este tipo de sistema ocupa cerca de 76 500 hectares, dos quais 40 100 hectares correspondem a configurações do tipo montado com cereal e pastagem. É, no entanto, um dos sistemas mais subestimados nas estatísticas oficiais, uma vez que os quadros de apoio às políticas agrícolas tendem a reconhecer sobretudo o pastoreio permanente, deixando de fora muitos mosaicos de árvores e culturas anuais 9.Sistemas de OlivalOs sistemas de olival silvoarável combinam oliveiras com culturas anuais — como cereais ou leguminosas — cultivadas nas faixas entre as filas de árvores, permitindo produzir azeite ou azeitona de mesa em conjunto com uma segunda colheita na mesma parcela.A nível nacional, os pomares de fruteiras, nogueiras e oliveiras consociados com culturas arvenses ocupam, em conjunto, cerca de 36 400 hectares. Estudos sobre a consociação de oliveiras com cereais e leguminosas mostram que esta prática pode aumentar a produtividade global do sistema face a culturas isoladas, melhorar a fertilidade do solo, aumentar a retenção de água e reduzir a erosão — sem comprometer, na maioria dos casos, o rendimento das próprias oliveiras 10.

Vinha de EnforcadoNo Norte de Portugal existe um sistema agroflorestal ancestral, com origem medieval, e hoje em rápido declínio: a vinha de enforcado. Neste sistema, árvores como o carvalho, o ulmeiro ou a cerejeira servem de suporte vivo às videiras, que crescem em altura em vez de assentes em estacas ou arames, enquanto milho e culturas hortícolas são cultivados entre as fileiras.É um dos exemplos mais singulares da diversidade agroflorestal portuguesa — uma combinação de viticultura tradicional, produção de cereal e uso funcional da árvore como estrutura viva — e representa uma forma de agricultura familiar que durante séculos permitiu a pequenas explorações diversificar a produção numa mesma parcela. Hoje, encontra-se ameaçado de desaparecimento 11.

Sistemas Lineares e em Mosaico

Esta categoria reúne sistemas em que as árvores não formam um coberto contínuo, mas se distribuem pela paisagem sob a forma de sebes, bordaduras ou linhas — muitas vezes em explorações pequenas e fragmentadas, sobretudo no Norte do país.No Norte e Centro de Portugal, os lameiros são pastagens naturais ou melhoradas onde as árvores surgem dispersas — em sebes, bordaduras de campo ou linhas ripícolas junto a cursos de água. Cumprem múltiplas funções: demarcação de propriedades, produção de lenha, alimentação animal, proteção contra a erosão hídrica e eólica, e melhoria das condições da pastagem.Este sistema é particularmente difícil de quantificar, uma vez que as árvores se distribuem por pequenas propriedades fragmentadas em vez de formarem um coberto contínuo e facilmente mapeável — a dimensão média das explorações na região era de apenas 6,5 hectares num levantamento de 2013. Nas últimas décadas, a redução do pastoreio tem contribuído para o abandono destas paisagens e para alterações na composição dos lameiros e de outros mosaicos baseados em pastagem. Para além da sua função produtiva, os lameiros desempenham um papel importante na regulação do ciclo da água e na proteção de linhas de água, contribuindo para a resiliência hídrica das paisagens do Norte de Portugal 12.

Abordagens Agroflorestais Contemporâneas

Para além dos sistemas tradicionais, tem vindo a emergir em Portugal uma nova geração de abordagens agroflorestais — mais densas, mais diversificadas e frequentemente inspiradas em técnicas de regeneração de solo e gestão da água. Estas abordagens não substituem o montado ou os restantes sistemas tradicionais; antes, expandem a sua lógica multifuncional, testando novas formas de desenhar, gerir e restaurar paisagens agroflorestais em Portugal.Agrofloresta Sucessional e SintrópicaA agrofloresta sucessional organiza as plantas por estratos, ritmos de crescimento e função ecológica, seguindo a lógica da sucessão natural ao longo do tempo. Espécies de crescimento rápido são podadas repetidamente, e o material resultante é colocado sobre o solo para apoiar a decomposição, a retenção de humidade e a ciclagem de nutrientes — uma técnica originalmente desenvolvida em contextos tropicais e atualmente em adaptação ao clima mediterrânico português 13.Florestas Alimentares e Pomares DiversificadosAs florestas alimentares combinam árvores, arbustos, plantas herbáceas e coberturas de solo produtivas numa estrutura em camadas, muitas vezes complementadas com espécies de biomassa ou polinizadoras. Em Portugal, os exemplos incluem olivais diversificados, pomares mistos e sistemas implementados em terrenos degradados ou propensos a incêndio 14.

Contexto Político e Institucional

A agrofloresta portuguesa opera dentro de um enquadramento político complexo, devido à sua natureza multifuncional. Está inserida em múltiplos domínios, incluindo a política agrícola, a gestão florestal, a conservação da biodiversidade e a ação climática. A coexistência de regulamentação agrícola e florestal gera frequentemente desafios de coordenação, tornando o apoio político consistente uma questão em aberto.Diversas associações representam os interesses de proprietários e agricultores envolvidos em agrofloresta, incluindo a União da Floresta Mediterrânica (UNAC), a Associação Florestal de Portugal (FORESTIS), a Associação Portuguesa da Cortiça (APCOR), a Federação Nacional das Cooperativas de Produtores Florestais (FENAFLORESTA) e a Associação Portuguesa da Castanha (REFCAST). Associações de uso múltiplo do território, como a AguiarFloresta, desempenham também um papel importante na representação de abordagens de gestão integrada. Instituições de investigação como o Centro de Estudos Florestais (CEF-ISA, Universidade de Lisboa) contribuem com conhecimento científico e inovação para o avanço do conhecimento e da prática agroflorestal.Brevemente: um Policy Brief está a ser desenvolvido por um grupo de trabalho sobre agrofloresta em Portugal, com o apoio da Federação Europeia de Agroflorestação (EURAF) e do Projeto DigitAF, do programa Horizonte Europa.

EURAF em Portugal

O que é a EURAF?A EURAF, Federação Europeia de Agroflorestação, liga gestores de terras, agricultores, produtores pecuários, investigadores e outros profissionais interessados nas interações entre árvores, culturas e animais. À medida que a investigação e a experiência prática continuam a crescer, uma mensagem torna-se cada vez mais clara: a agrofloresta é uma parte fundamental do futuro do uso sustentável do território.Porquê aderir à EURAF?Aderir à EURAF dá-lhe acesso a uma rede europeia forte, ao conhecimento e às melhores práticas mais recentes em agrofloresta, e a oportunidades de formação, colaboração e visibilidade. A adesão oferece também um canal para acompanhar e contribuir para discussões políticas, reforçar esforços de advocacia, e estabelecer ligações com oportunidades de financiamento e parceria para projetos agroflorestais.
Como posso tornar-me membro da EURAF?
Se está em Portugal e deseja aderir à EURAF, pode registar-se através do Dryland Agroforestry Center (DAC), o ponto de contacto nacional da EURAF em Portugal. Para questões sobre a adesão, pode também contactar-nos. Para consultar todas as formas de se tornar membro da EURAF, veja aqui as opções de adesão.Quando é a próxima conferência da EURAF?A EURAF organiza uma conferência europeia a cada dois anos, reunindo mais de 400 investigadores, agricultores e decisores políticos. A mais recente teve lugar em Neuchâtel, na Suíça, em junho de 2026 — a próxima edição será anunciada oportunamente no site da EURAF.